Um áudio explosivo colocou o São Paulo Futebol Clube no centro de uma grave crise institucional. O Ministério Público de São Paulo requisitou a abertura de inquérito policial para apurar um suposto esquema de comercialização irregular de camarote no estádio do MorumBIS, tratado pelas autoridades como possível exploração clandestina de espaço pertencente ao clube.
De acordo com material obtido pelo ge.com, o caso envolve Douglas Schwartzmann, diretor adjunto das categorias de base do São Paulo, e Mara Casares, diretora feminina, cultural e de eventos do clube — além de ex-esposa do presidente Julio Casares. Nesta quinta-feira (18), segundo informou o UOL, o Ministério Público formalizou o pedido de investigação, encaminhando o caso à Polícia Civil.
O promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro, responsável pela decisão, afirmou que os elementos reunidos até o momento são suficientemente graves para justificar a apuração criminal.
“O Ministério Público identificou indícios muito sérios de possível corrupção privada no esporte, além de crime de coação no curso do processo, diante das ameaças divulgadas no áudio, condicionando uma pessoa a retirar uma ação que tramitava regularmente no Poder Judiciário”, declarou o promotor ao UOL.
Como o caso chegou à Justiça
Segundo os áudios revelados, o camarote 3A, identificado em documentos internos como “sala presidência”, teria sido repassado a uma intermediária, Rita de Cássia Adriana Prado, que explorou comercialmente o espaço durante o show da cantora Shakira, realizado em fevereiro no estádio do São Paulo.
Os ingressos chegaram a ser vendidos por até R$ 2,1 mil, com faturamento estimado em R$ 132 mil apenas nessa apresentação.
A situação ganhou contornos judiciais quando Adriana ingressou com uma ação na 3ª Vara Cível de São Paulo contra Carolina Lima Cassemiro, da empresa Cassemiro Eventos Ltda. Segundo a autora, Carolina teria retido, sem autorização, um envelope contendo 60 ingressos do camarote, no dia do show, após efetuar apenas parte do pagamento combinado.
O episódio também foi registrado em Boletim de Ocorrência.
Pressões, ameaças e temor de exposição
Nos áudios, Douglas Schwartzmann demonstra preocupação com os desdobramentos judiciais do caso e admite que o esquema poderia vir à tona caso o processo avançasse. Em diversos trechos, ele pressiona Adriana para que a ação fosse retirada, alertando para possíveis danos à imagem de Mara Casares, do presidente Julio Casares e do superintendente Marcio Carlomagno, citado como responsável por autorizar a cessão do camarote.
Em determinado momento da gravação, Schwartzmann chega a afirmar que “ganhou” com o repasse de camarotes.
Mara Casares também aparece no áudio pedindo que Adriana encerre o processo, alegando que o avanço do caso poderia comprometer sua trajetória dentro do clube. A dirigente afirma ter planos futuros no São Paulo e se coloca como a principal prejudicada caso o episódio fosse judicializado.
Adriana sustenta que os ingressos do camarote 3A foram vendidos por R$ 132 mil, mas que apenas R$ 100 mil teriam sido pagos. Diante disso, registrou ocorrência na 34ª Delegacia de Polícia de São Paulo, fato que teria motivado as pressões relatadas. Os áudios foram gravados a partir de um telefone e acessados pelo ge.com.
O que diz o São Paulo Futebol Clube
Em nota oficial, o São Paulo confirmou que o camarote 3A pertence ao clube e informou que, no dia do show da Shakira, o espaço estava destinado à diretoria feminina, cultural e de eventos, comandada por Mara Casares.
O clube afirmou desconhecer o teor dos áudios e negou a existência de qualquer esquema ilegal. Em comunicado posterior, reiterou que repudia e refuta a comercialização irregular de camarotes no MorumBIS.
Possíveis punições e consequências
De acordo com o estatuto do São Paulo, condutas que causem dano à imagem da instituição podem resultar em punições que vão desde advertência até perda de mandato e inelegibilidade.
Advogados ouvidos pela reportagem do geTV avaliam que o caso pode se enquadrar no crime de estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal, cuja pena varia de um a cinco anos de reclusão, além de multa.
Diante da gravidade do escândalo, conselheiros da oposição protocolaram pedido de afastamento do presidente Julio Casares, alegando prejuízos institucionais causados pela suposta venda ilegal de camarotes no MorumBIS.
O que dizem os citados
Mara Casares reconheceu que o espaço foi cedido à intermediária Adriana Prado, mas negou ter recebido qualquer benefício financeiro. Segundo ela, a cessão ocorreu de forma pontual, baseada em uma relação de confiança que teria sido quebrada quando Adriana repassou o camarote a terceiros sem autorização. A dirigente afirmou ainda que acionou Douglas Schwartzmann apenas para auxiliá-la na tentativa de resolver o conflito.
Marcio Carlomagno, citado na gravação, declarou ter sido surpreendido pelo uso de seu nome e negou qualquer utilização clandestina do camarote.
Carolina Lima Cassemiro afirmou que não tinha conhecimento de irregularidades e alegou ter sido enganada, sustentando que cumpriu o acordo firmado.
Já Douglas Schwartzmann negou todas as acusações, afirmando que em nenhum momento participou de venda, negociação ou comercialização de camarotes ou ingressos de eventos realizados no Estádio do MorumBIS.
A Dreams FM tentou contato com o presidente Julio Casares, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

